A reunião: um filme-poema para transpor a pandemia, por Julia Levy (*)

Partindo de debates na atividade extensionista Oficina de Poesia e Crítica Social e no Laboratório de Estudos Marxistas (LEMA) do Instituto de Economia, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde foram abordados trabalhos acadêmicos e artísticos, elencamos o filme A REUNIÃO, do realizador audiovisual carioca André Sandino, para analisar o momento brasileiro: “São tempos pandêmicos, tempos de mar grande, de mar agitado dentro peito”, traduz a poetisa Carol Dall Farra, uma das artistas retratadas no curta-metragem.

A REUNIÃO é uma criação oriunda dos primeiros meses de confinamento de Sandino e foi o ponto de partida poético para conversamos sobre a realidade atual e as possíveis brechas para a produção audiovisual brasileira num contexto de pandemia, desmonte e paralisia das instituições culturais.

O filme foi exibido no dia 12 de julho de 2021, durante a 2ª edição do Festival do Conhecimento[1] da UFRJ e, como numa sessão cineclubista, exibimos integralmente o documentário e o debatemos com seu idealizador, realizador e editor, André Sandino, e com as/os artistas nele retratadas/os:

Wescla Vasconcelos, cearense, travesti, pedagoga, atriz, artista, produtora criativa, mestranda em cultura e territorialidades na Universidade Federal Fluminense, ativista dos direitos humanos e articuladora do Fórum Estadual de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro (FORUM TT RJ), colaboradora da Casa de acolhimento LGBTQIA+ do Rio (CASA NEM) e assessora parlamentar no mandato da vereadora Tainá de Paula. Wescla trouxe para o debate sua trajetória de vida, a mudança para a cidade do Rio de Janeiro e acolhimento pela Casa NEM, o engajamento na luta pelos direitos humanos, assim como seus trabalhos artísticos com o Coletivo Xica Manicongo e no Sertranejas em parceria com a atriz e poetiza Bianca Fernandes, também participante do filme, e Tertuliana Lustosa, escritora, cantora e compositor e artista contemporânea. No filme, Wescla Vasconcelos e Bianca Fernandes realizam a performance de um poema e uma ciranda interativa com o público presente na ocasião do Sarau registrado pelo diretor André Sandino, no SESC de Copacabana em 2019.

Carol Dall Farra, compositora, poeta, estudante de geografia da UFRJ, rapper de Duque de Caxias, integrante dos coletivos Slam das Minas RJ e Poetas Favelados, com os quais pratica ações poéticas em escolas e espaços públicos. Desde os quinze anos aborda em suas músicas e poemas, temas como as discriminações racial, de gênero e de classe. No curta, o diretor registra a performance da declamação de uma poesia de sua autoria, Pensamento multirraciocínio, expondo a sofisticada composição de seus versos assim como de sua interpretação. Dall Farra trouxe para a conversa como se deu sua trajetória enquanto poeta, cantora e compositora e também enquanto ativista, evidenciando o quanto sua expressão artística é ricamente diversificada e comprometida com a realidade social.

Márcio Januário, artista múltiplo e multimídia: bailarino, diretor e ator teatral, produziu o último longa-metragem do realizador Clementino Jr., O Trem do Soul (2021), sobre o movimento soul, também apelidado de “Black Rio”. Em 2020, foi o protagonista de outro curta-metragem de André Sandino, As canções de amor de uma bicha velha, que têm recebido diversos prêmios nos festivais de cinema brasileiros onde foi exibido.

Indagado sobre as dificuldades de produção durante um momento tão difícil e atípico como este de pandemia, Sandino nos explicou como conseguiu inverter a lógica de produção tradicional dos filmes valendo-se de seus próprios materiais já captados e de materiais diversos de alguns parceiros seus como: imagens de Duque de Caxias, cedidas pelo realizador e cineclubista Heraldo HB e Cineclube Mate com Angu; imagens dos filmes Zona do agrião e Feito por ratos do realizador e cineclubista Frederico Cardoso; e do filme Pequeno extrato de Paulo F. Camacho e Frederico Cardoso. Dessa forma, mesmo em confinamento, o realizador conseguiu percorrer a cidade do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, explorando os significados da palavra “sarau” em diversos locais que abrigam esses eventos poéticos.

Devido as circunstâncias de confinamento social e a impossibilidade do encontro com as/os artistas retratadas/os, Sandino também comentou como confiou com a colaboração delas/es na gravação de seus próprios depoimentos, numa captação coletiva de imagem e som. Embora tais mudanças não possam ser sentidas no resultado final do filme, tendo em vista o cuidado com que as/os colaboradoras/es tiveram ao se documentar, transparecendo uma intimidade típica que se estabelece nas relações documentais, os desafios de comunicação remota durante o período de produção foi um ponto sensível e de preocupação exposto pelo diretor durante a conversa. As/o artistas retratadas/os, narraram a entrega e confiança na realização, embora num contexto tão adverso pelo qual ainda estamos passando. De certa forma, o filme acaba por evidenciar grande generosidade e alteridade entre toda a equipe, delicadezas cada vez mais raras no relacionamento humano e que nem sempre são regra nos sets de filmagem, mas que, felizmente, estão “impressas” no filme de Sandino.  

De enorme beleza e força, A REUNIÃO pode ser considerado como uma síntese potente do momento em que vivemos. O filme destaca vozes femininas que expurgam e reconfiguram dores e opressões, transmutando-as em força artística, criativa, de luta e beleza, num movimento renovador e inspirador, motivo que nos levou a propor uma atividade coletiva para exibi-lo e debatê-lo publicamente como numa sessão cineclubista.

O painel temático A REUNIÃO: UM FILME-POEMA PARA TRASPOR A PANDEMIA, pode ser integralmente visualizado através do link:  https://youtu.be/ca7b4QlZxV8.

As obras do realizador André Sandino podem ser acessadas no seu canal no Youtube: https://www.youtube.com/user/sandinoandre.

(*) – Julia Levy é mestranda do programa de pós-graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ) onde pesquisa o audiovisual brasileiro abordando de forma interdisciplinar suas relações sociais, culturais e econômicas. Integra o Laboratório de Estudos Marxistas (UFRJ) e o Elviras – Coletivo de mulheres críticas de cinema.


[1] O evento online contou com o apoio técnico da equipe do Festival do Conhecimento e das pesquisadoras e integrantes do LEMA e da Oficina de Poesia e Crítica Social, Gleyse Peiter e Lucia Helena Ramos.

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