Interpretações do Brasil

Este espaço se dedica a apresentar as ideias daqueles e daquelas intelectuais que pensaram profundamente o Brasil, vendo nossos legados, problemas e perspectivas. Entender a realidade do país no seu processo histórico, visando a construção da nação brasileira.

100 anos de Florestan Fernandes e Celso Furtado

No ano de 2020 Celso Furtado e Florestan Fernandes fariam 100 anos. Por uma diferença de 4 dias, em 22 de julho de 1920, nascia o paulistano Florestan e em 26 de julho, o paraibano Furtado.

Ambos compreenderam e interpretaram o Brasil de forma profunda. Suas contribuições permanecem de fundamental importância  para o entendimento do processo histórico do país como nação.

Para homenageá-los, o Lema realizou diversas rodas de conversa com intelectuais para falarem sobre as obras desses dois grandes intérpretes do Brasil.

Maria Malta e Jaime Léon conversam com Plínio de Arruda Sampaio Junior, professor da UNICAMP sobre a obra de Celso Furtado. Desenvolvimento, Subdesenvolvimento, Cultura, Formação Econômica do Brasil

Mauro Iasi, professor da Escola de Serviço Social da UFRJ, conversa com Maira Malta, Carla Curty, Wilson Vieira, Jaime Léon, Gleyse Peiter e Gabriel Campos sobre a obra de Florestan Fernandes .

Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor do Instituto Três Rios da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro ( UFRRJ), fala sobre ” Capitalismo Independente e Imperialismos Total “, de Florestan Fernandes, para Carla Curty, Jaime Léon, Hellowa Correa e Gabriel Campos. sobre a obra de Florestan Fernandes .

João Paulo Hadler, Professor do Instituo Três Rios da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro fala sobre ” As raízes estruturais da crise brasileira” em Celso Furtado, para Carla Curty, Jaime Léon, Wilson Vieira e Gabriel Campos.

Leda Paulani, professora da Universidade de São Paulo, fala sobre Celso Furtado para Maria Malta, Jaime Léon, Gabriel Campo e Pedro Brandão.

Roberto Leher, professor da Faculdade de Educação e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fala sobre educação pública, considerando o papel de Florestan Fernandes, para Maria Malta, Jaime Léon, Carla Curty, Gabriel Campo e Pedro Brandão.

Zelito Viana, diretor e produtor do filme ” Choque Cultural “, debate com Julia Levy, Maria Malta, Wilson Vieira, Jaime Léon, Ian Horta e Bruno Borja .

Virginia Fontes, historiadora, professora da Universidade Federal Fluminense, conversa sobre a situação da classe trabalhadora com Maria Malta, Carla Curty, Jaime Léon, Pedro Gama, Matheus Sadde e Diego Correia .

20 anos sem Clóvis Moura

Clóvis Steiger de Assis Moura (1925-2003) foi um historiador, poeta, jornalista, sociólogo marxista e militante comunista. Sua origem social é de uma família de classe média, exercendo seu pai a profissão de fiscal de renda, o que lhe possibilitou ter acesso à educação formal e a, inclusive, ingressar no ensino superior, algo incomum no contexto brasileiro da época e da realidade do nordeste brasileiro. 

Em sua caminhada intelectual, teve sempre a marca registrada de interpretar o Brasil a partir da perspectiva do negro brasileiro, de maneira a demonstrar “a dinâmica das relações raciais como um elemento central na estruturação da sociedade de classes brasileira”. Moura  percebia a importância econômica e ideopolítica dos negros e negras no processo de colonização nacional, localizado por ele como parte da expansão mundial do capitalismo europeu.

O autor era um conhecedor nato das obras marxianas e se utilizou disso para sua gigantesca empreitada de interpretar o Brasil de forma diametralmente oposta às elaborações de pensadores como Gilberto Freyre e Oliveira Vianna, que contribuíram ideologicamente tanto para com o mito da democracia racial no caso do primeiro, quanto para uma cultura política autoritária no caso do último.

Com isso, Moura buscou historicizar e interpretar o negro enquanto sujeito ativo da implementação e desmanche do que ele chamava de modo de produção escravista, ao notar que a contradição fundamental dessa sociedade era entre senhores de escravos e escravizados, dada a necessidade ininterrupta de produzir mercadorias.

A partir daí, Moura inseriu-se de modo sólido na controvérsia com a historiografia da escravidão que situava o negro como passivo e/ou degenerado. Sempre preocupado com uma teoria que se conformasse numa verdadeira sociologia da práxis, que superasse uma “nação inconclusa”, foi crítico do “pensamento social subordinado”, seja ele situado como uma imparcialidade científica (inexistente) ou expresso por uma ideologia racista racionalizada.

Será na Bahia que Clóvis Moura terá maior contato com o marxismo, a partir de seu ingresso nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1945, um ano após iniciar carreira jornalística num jornal diário da organização. Alguns anos depois, em São Paulo, integraria a Frente Cultural do PCB, que reunia intelectuais como Caio Prado Junior. Em 1962, integra o grupo que rompe com o PCB e funda o Partido Comunista do Brasil. A partir das décadas de 1970 e 1980, Moura estreitará seus laços com organizações do movimento negro, como o MNU e a UNEGRO. Em 1975, foi decisivo na fundação do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas (IBEA), no qual exerceria a presidência.

Moura teve sua vida intelectual construída fora da academia – e sempre na direção de construir uma sociologia da práxis negra, em detrimento de uma práxis escolástica-acadêmica. Trabalhou sempre como jornalista, profissão com a qual conciliou com sua atividade de pesquisador, a militância política e a participação em diversos seminários e congressos.

É na década de 1980, a partir do recebimento do título de Doutor Notório Saber da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), que Moura se integrará mais entre os círculos acadêmicos paulistanos, inclusive participando como examinador de bancas de mestrado e doutorado na USP e na Universidade Estadual de Campinas. Isso, é claro, sem nunca perder sua veia marxista voltada para a interpretação e mudança do real: algo que Moura permaneceu articulando criticamente até sua morte, em São Paulo, em dezembro de 2003.