A virada religiosa no Brasil, por Wilson Vieira(*)

A Igreja Católica ainda conta hoje com a maioria de adeptos entre a população brasileira, apesar da grande quantidade de “não praticantes” (em torno de 40%), porém, tal participação tem decrescido: em 1980, segundo o estudo do CPS/FGV – Novo Mapa das Religiões (coordenado por Marcelo Néri e publicado em 2011) – havia 88,96% de católicos, enquanto que em 2009 registramos 68,43%. Vários fatores explicam essa perda constante:

I) Perda do vigor da Teologia da Libertação (presente não só na Igreja Católica, mas também nas igrejas protestantes históricas: anglicana, metodista, presbiteriana, luterana) devido a perseguições a seus teólogos, padres e bispos sob o pontificado conservador de João Paulo II (1978-2005), amenizadas no pontificado de Bento XVI (2005-2013), apesar do então Cardeal Joseph Ratzinger ter participado (como presidente da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) ativamente delas no pontificado de João Paulo II, e encerradas sob o atual pontificado do Papa Francisco (desde 2013). Parte da ala conservadora da Igreja Católica tentou conter essa perda de adeptos através da implantação no Brasil de um movimento católico pentecostal criado nos EUA, denominado Renovação Carismática Católica (RCC), que busca renovar, fortalecer os dons (carismas) do Espírito Santo em seus seguidores, dentro de uma linha conservadora tanto moral quanto política (com raríssimas exceções).

II) Aumento da fragmentação social a partir do avanço do neoliberalismo e da urbanização crescente.

III) Avanço das igrejas protestantes neopentecostais a partir da década de 1980.

Do lado das denominações protestantes neopentecostais (cujos adeptos preferem ser chamados de “evangélicos”) observamos um crescimento constante a partir da década de 1980, ganhando força a partir da década de 1990 (em 1994, seus adeptos eram em torno de 10% e em 2016, 22% da população brasileira, segundo pesquisa do Instituto Datafolha). Tais igrejas, em boa parte fundadas a partir de meados da década de 1970, são oriundas do movimento neopentecostal dos EUA (um primeiro movimento ocorreu no início do século XX, denominado movimento pentecostal e diferente do atual, mas com baixíssima adesão no Brasil e que se caracterizava por cultos sóbrios, sem espetacularização), com forte presença nos cultos da invocação da ação do Espírito Santo (dentro de uma estética do espetáculo com pregações vigorosas, dança e música) e com uma teologia que prega a prosperidade material individual como sinal da bênção de Deus, além da adoção de uma linha conservadora nos costumes e na política, numa ação de confronto com a ciência, com práticas charlatãs de “cura” e críticas às recomendações da OMS de combate à COVID-19 (como o isolamento social).

Alguns fatores explicam tal crescimento:

I) Grande capilaridade com forte presença nas periferias das grandes cidades.

II) Grande capacidade de ajuda aos adeptos mais fragilizados devido a uma estrutura mais enxuta, ocupando um lugar em que o Estado deveria se fazer mais presente, organizando as comunidades locais.

III) Grande presença nos meios de comunicação.

IV) São, para seus adeptos, uma forma de “ordenamento da vida” e socialização no mundo fragmentado do neoliberalismo.

V) Forte discurso do sucesso individual (teologia da prosperidade), indo ao encontro do neoliberalismo.

VI) Presença crescente na política de forma direta dos pastores neopentecostais (cargos no Executivo e no Legislativo) a qual alimenta o neopentecostalismo (proselitismo religioso e político, ou seja, cooptação religiosa e política), como observa Valdemar Figueredo (cientista político, teólogo e pastor) em entrevista ao Jornal GGN em 6/4/2019.

É importante colocar aqui também a tensa relação entre as igrejas neopentecostais e as religiões de matriz africana, caracterizada por perseguições daquelas em relação a estas. Segundo Vagner Gonçalves da Silva no artigo Neopentecostalismo e Religiões Afro-brasileiras: Significados do Ataque aos Símbolos da Herança Religiosa Africana no Brasil Contemporâneo, publicado em 2007 na revista Mana [doravante Silva (2007)], a origem dessa tensão ocorre ainda no movimento pentecostal a partir da atuação, nas décadas de 1960 e 1970 do pastor Walter Robert McAlister (dos EUA), fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida no Rio de Janeiro e de onde saíram Edir Macedo e Romildo Ribeiro Soares (R. R. Soares), fundadores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Posteriormente, R. R. Soares saiu da IURD e fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus.

A atuação de McAlister foi sempre de combate às religiões de matriz africana, vistas por ele como religiões que cultuavam o diabo. Para ele, o combate teria de ser dado pela divulgação de seu livro (Mãe de Santo, 1968) e pelo convencimento com cultos “sóbrios”, discretos, ao contrário da atuação das igrejas neopentecostais (principalmente da IURD), que vão além do combate via livro (como o de Edir Macedo, lançado em 1988: Orixás, Caboclos e Guias. Deuses ou Demônios?) com cultos com muita música, pregação, “curas” e exorcismos de “demônios das religiões afro-brasileiras”, mas também com alguma semelhança aos cultos dessas religiões, pois os participantes podem entrar em transe que, segundo os pastores, é a presença do Espírito Santo neles (quando não está ocorrendo algum exorcismo). Esse combate também se dá de forma violenta, com invasões a terreiros e agressões físicas aos seus participantes (inclusive com participação de traficantes evangélicos). Tal combate e, ao mesmo tempo, aproximação, se trata de uma disputa de fiéis das periferias, como afirma Silva (2007).

As religiões de matriz africana têm reagido com processos na justiça e união entre elas e com outras religiões no combate à intolerância (principalmente a Igreja Católica e as igrejas protestantes históricas, mas também com participação das denominações do budismo, do judaísmo e do islamismo).

Dado o atual quadro, podemos rascunhar algumas possíveis tendências:

I) Continuação do apoio a Bolsonaro, mesmo desgastado, dados os interesses dos líderes evangélicos neopentecostais (vide a postura de alguns deles em relação ao combate ao novo coronavírus, em consonância com a postura do presidente).

II) União maior dos setores progressistas das diversas religiões em prol do impeachment.

Há um cenário de divisão, frente à situação caótica que estamos vivendo com combinação de três crises: da saúde, econômica e política, o que pode abrir brechas de atuação dos setores progressistas das diversas denominações religiosas.


(*) Economista, professor do Instituto de Economia da UFRJ (IE-UFRJ), pesquisador do Laboratório de Estudos Marxistas (LEMA) da UFRJ, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC) da UFRJ.

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