Mutirão Audiovisual, por Luiz Claudio Motta Lima (*)

Mutirão é uma palavra que vem do Tupi com o significado de trabalho coletivo para uma finalidade de benefício comunitário. Geralmente após a realização destes trabalhos se tem uma comemoração com comidas e bebidas diversas. Nos Subúrbios Cariocas essa prática é bastante comum, seja na construção de uma casa, ou qualquer outra atividade que exija uma participação coletiva. Foi natural que nas produções realizadas pelas alunas e alunos do Núcleo de Arte Grécia desde 2003, quanto pelas produções realizadas pelo cineclube Subúrbio em transe, criado em 2007 no projeto das produções do Núcleo de Arte Grécia, fossem realizadas produções audiovisuais a partir do Mutirão Audiovisual.

O Professor de Geografia Urbana da UERJ, Gilmar Mascarenhas, costumava citar Henri Lefbvre, reivindicando a cidade como o lugar do encontro. O Geógrafo, faleceu em 10 de junho de 2019, vítima de um atropelamento de ônibus, quando se deslocava de bicicleta, de sua casa em Laranjeiras para a UERJ. Podemos ver um pouco do seu pensamento neste curta-metragem, realizado dentro das características do Mutirão Audiovisual: O lugar do encontro (https://www.youtube.com/watch?v=JeyLTGCQXA4}.

Professor Gilmar Mascarenhas, homenageado no Curta-metragem; O Lugar do Encontro.

A proposta do Mutirão Audiovisual é, justamente, promover o encontro e a troca de ideias, a partir das exibições e debates cineclubistas e das produções audiovisuais, que fazem uma reflexão sobre o lugar onde nós vivemos e nos relacionamos. 

 O Subúrbio em Transe é um cineclube que tem como proposta a democratização da realização de produções audiovisuais para os moradores da cidade do Rio de Janeiro.  Alguns de seus integrantes realizam oficinas de realização audiovisual com jovens estudantes das escolas públicas, sendo o Núcleo de Arte e Ginásio Municipal Grécia a que acontece há mais tempo, desde o ano de 2003. Na Lona Cultural João Bosco a oficina de audiovisual começou no ano de 2011. Neste período foram realizadas algumas produções, uma destas foi o curta-metragem “No Limite do Horizonte”, premiado como melhor filme na mostra Cinema da Gema, do Festival Visões Periféricas 2012. Também na Lona, desde 2012, são realizadas sessões cineclubistas com debates, onde sempre é convidado alguém da equipe do filme ou alguém que possa contribuir para debate sobre o tema do filme exibido. A Casa do Artista Independente (CASARTI) foi o local onde o cineclube começou suas sessões em 07/07/07. Desde então são realizadas sessões mensais e oficinas audiovisuais, sempre valorizando a forma de realização coletiva.

O Mutirão Audiovisual tem o objetivo de trazer para o debate a dinâmica de realização audiovisual desenvolvida pelo cineclube Subúrbio em transe desde sua criação em 07/07/07.  A partir das produções e exibições cineclubistas serão estimuladas questões sobre a memória e valorização dos nossos lugares, e assim percebendo as várias questões que norteiam a complexidade urbana da cidade do Rio de Janeiro.

A Valorização do Lugar

            A partir das realizações audiovisuais produzidas segundo a metodologia desenvolvidas nas Oficinas Audiovisuais do Núcleo de Arte Grécia e do Cineclube Subúrbio em Transe, foi proposto o desafio da criação de projetos para a valorização do lugar de onde o curta-metragem foi produzido.

Cena do Curta-metragem No Limite do Horizonte.

            Além de todas as etapas da produção audiovisual também se estimula no projeto a interação e olhar crítico de onde se produz o curta-metragem, com o objetivo de estimular uma aproximação com os diversos aspectos do espaço social.

            A proposta do Mutirão não é o de “ensinar” a trabalhar com a linguagem audiovisual. O principal interesse deste projeto é justamente gerar uma maior interação na produção audiovisual, valorizando os aspectos coletivos e o debate sobre os lugares onde nos relacionamos.

            Muitas produções audiovisuais foram produzidas a partir da ideia de Mutirão Audiovisual pelo cineclube Subúrbio em Transe, levando em consideração a coletividade e os saberes de cada um integrante da equipe. Portanto, com as experiências de cada um se constrói um olhar coletivo, onde o cinema prioriza a diversidade de olhares para a valorização do lugar. Seguindo os ideais de um personagem coletivo, que não abre espaço para um personagem protagonista, herói, que tudo resolve, sem precisar de ajuda. O protagonismo do cinema narrativo, cede lugar para a noção de coletividade e cooperativismo entre equipe e personagens, em uma narrativa que privilegia a construção da coletividade, plena expressão do Mutirão Audiovisual.

Atualmente essa prática é comum em nossas produções. Mas para tanto foi necessário a organização e produção de um longa-metragem documental chamado de Alma Suburbana, que reuniu uma equipe inexperiente de uma turma de audiovisual do Núcleo de Arte Grécia, no ano de 2007.

O Mutirão Audiovisual e a Alma Suburbana

            A ideia para a produção do documentário Alma Suburbana (https://www.youtube.com/watch?v=0lD_bVtcWD8) foi motivada pelo telefonema da jornalista Joana D’arc, que se aproximou da Oficina de Vídeo com a intenção de produção de um documentário sobre a cultura nos Subúrbios Cariocas. Na época ninguém da equipe tinha noção da produção de um longa-metragem. Nós da Oficina de audiovisual do Núcleo de Arte Grécia, havíamos realizado alguns curtas-metragens. Entre estes curtas se destacava, na época, o documentário Arrastão Literário, que chamou a atenção da jornalista para a entrevista sobre a questão da diferenciação de áreas da cidade.

            O primeiro contato sobre a produção do filme foi estabelecido nas férias de julho. Em agosto a produção já tinha começado e em dezembro de 2007 o documentário Alma Suburbana foi exibido no cineclube Subúrbio em Transe.

            O Mutirão Audiovisual foi fundamental para a produção do documentário, embora fosse uma experiência nova de produção da oficina. Essa forma de produzir se construiu junto com o filme. Inclusive o título surgiu com a entrevista de Luiz Carlos da Vila que batizou o documentário com o nome de Alma Suburbana.

O documentário “Alma Suburbana” foi dirigido de forma coletiva por Leonardo Oliveira (Ex aluno da Oficina de Vídeo do Núcleo de Arte Grécia. Atualmente é cineasta); Hugo Labanca (Ex aluno da Oficina de Vídeo do Núcleo de Arte Grécia. Atualmente trabalha nas áreas de Publicidade e Audiovisual), e pela jornalista Joana D´arc (Em 2007, ano da produção documentário Joana D´arc tinha acabado de concluir o curso de Jornalismo na UNISUAM). Eu participei do documentário como orientador da oficina de vídeo do Núcleo de Arte Grécia (A turma da Oficina de vídeo teve uma participação efetiva em todas as etapas da produção do filme), como Produtor e como Diretor. Esclareço que por ter participado da produção do filme me sinto à vontade para fazer uma análise crítica sobre o documentário

            O filme começa com a travessia no túnel Rebouças, onde entramos de uma maneira brusca, sem que reflitamos sobre o espaço que nos suga.  Ao final do túnel nos deparamos com uma placa que tem os seguintes dizeres: “Quer mudar chame o Rangel”. Aí, o clima muda. O som de carro se mistura com o samba cantado por Luiz Carlos da Vila. O ambiente do Túnel é substituído pelo calor humano do churrasco e pela roda de samba suburbana.

Cena do Filme Alma Suburbana.

As imagens iniciais do filme sugerem uma aproximação com o Subúrbio. A forma de apresentação dos representados pelos espaços da zona norte e zona sul da cidade são abordadas de maneiras diferenciadas.  O documentário “Alma Suburbana” é assim, um percurso, um caminho a ser acompanhado e talvez entendido. Por isso, o filme, narrado de forma circular, termina como começa: Na roda de samba.

Toda a estrutura do filme parte do ponto de vista de quem mora nos subúrbios, e aqueles que embora não morem nestas áreas da cidade, tenham alguma ligação direta ou indireta com estes lugares. Como diz o entrevistado Gilmar Mascarenhas, “o subúrbio bucólico pertence mais a nosso imaginário do que a realidade”.

Cena do filme Alma Suburbana. Luiz Carlos da Vila cantando um samba na Lona Cultural João Bosco, Vista Alegre.

As imagens do documentário se centram exatamente em seu morador. A câmera se localiza na maioria das vezes próxima ao interlocutor, para melhor ver sua expressão e para nos fazer mergulhar neste universo que lhe pertence. Talvez, por este motivo, a câmera se detém em quem fala. O que importa é, por um momento, sentar, ver e ouvir, aquele que por muito tempo não teve direito de se expressar. E esse meio de expressão se dá de diversas formas, principalmente por sua cultura, através do teatro, da música, da dança, das artes plásticas, do cinema. Muitos dos entrevistados expressam suas opiniões através das expressões artísticas. Podemos perceber a partir da música do Tico Santa Cruz que a organização espacial do Rio de Janeiro se deu de maneira diferenciada nas zonas sul e nas demais áreas da cidade, onde, enquanto um tem a liberdade, o outro tem apenas o direito de viver:

“Me provoque  o seu desprezo com um pouco de atenção.

A mentira que nos cerca é mais normal do que se crê.

Entre a tua liberdade e o meu direito de viver.

Tente imaginar nós dois.

Tente imaginar depois”.

            Esse direito à vida é visto no filme na persistência da própria equipe em valorizar o lugar onde vive. A estrutura fílmica se organiza através dos diálogos entre os entrevistados, e assim, vai se construindo ideia da intercomunicação entre uma área deixada de lado pelo poder público.  A equipe coletiva do filme na ânsia de revelar o subúrbio acaba se revelando, através da imagem refletida nos óculos de um dos entrevistados (Eryk Rocha), que fala exatamente sobre o olhar do cinema sobre o subúrbio. O reflexo das imagens dos suburbanos no olhar de um cineasta nos leva a refletir sobre o autor e o objeto do filme. Essa questão que os teóricos tanto discutem é mostrada também através dos ruídos das diferentes áreas do subúrbio que vazam o tempo todo e às vezes se sobrepõem à voz de alguns entrevistados. Podemos comparar esses ruídos com as vozes do povo suburbano, que tanto fala e pouco é escutado. No final, Luiz Carlos da Vila, ao ser interrompido, por um pássaro, durante a entrevista para o documentário dialoga com o “intruso”: “Passarinho quer cantar? Canta passarinho”. E canta em parceria com a ave. Essa é a alma suburbana.

            Várias questões surgem durante os 75 minutos de filme. Esse espaço é muito pequeno para se falar de todas. Esta é apenas uma das várias análises possíveis de um documentário que é preciso ser visto e comentado.

            Atualmente, com quase 15 anos da experiência, consolidamos e valorizamos este tipo de produção que estimula a integração e cooperação da equipe e participantes de uma jornada, que é fundamental para a valorização da identidade de um grupo de moradores de uma parte da cidade.

O Mutirão Audiovisual e o Cineclubismo

            Além das produções audiovisuais as exibições e debates cineclubistas constituem um dos fundamentos do Mutirão Audiovisual, já que nestas sessões se têm a oportunidade de estimular o olhar e o pensamento, estimulando as perspectivas de criação.

            O cineclubismo é fundamental para o incentivo das produções com o intuito de valorização do lugar e da população, através uma maneira de produzir que parte da coletividade para a realização de um projeto comum a maior parte dos indivíduos.

            Nas trocas a partir do bate-papo entre os cineclubistas é que surgem muitas das ideias das produções do cineclube Subúrbio em Transe. O documentário Desculpe Qualquer coisa (https://www.youtube.com/watch?v=SO2nZzg6tuU) surgiu a partir dos encontros cineclubistas do Subúrbio em Transe com o Mano Kinho Chinfra fundador do coletivo Suburbagem, que promove e estimula o Rock’n’ roll suburbano desde 1999. Na ocasião foi proposto a realização de um documentário sobre o Mestre Bira, músico local que se notabilizou por ensinar música a garotada da região, entre eles, se destacou o Mano Kinho que quis homenagear o Mestre, falecido em junho de 2018, antes da finalização do documentário. A exibição no cineclube reuniu um público amplo que trocou ideias a partir das imagens e sons de uma pessoa comum, moradora do bairro, que muitos passaram a conhecer a partir da exibição do curta-metragem.

Debate no Cineclube Subúrbio em Transe

            O Cineclube Grécia, que faz parte do projeto Cineclube nas Escolas desde 2008, no Núcleo e Ginásio Carioca Grécia, integrante da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, também é um projeto bastante importante para as realizações estudantis a partir do Mutirão Audiovisual.

Debate no Cineclube Grécia, Projeto Cineclube nas Escolas.

            Através das exibições e debates cineclubistas as turmas do Núcleo de Arte e Ginásio Carioca Grécia se sentem estimulados a se reunirem em equipes e organizarem para as realizações audiovisuais diversas. Estas foram algumas das experiências com o audiovisual realizadas de maneira coletiva a partir do Mutirão Audiovisual para Valorização do Lugar.

Os subúrbios cariocas refletem a organização espacial da cidade do Rio de Janeiro, desde a sua ocupação até os dias atuais, onde parte da população foi expulsa para áreas mais distantes, pouco assistidas pelo poder público. Essa ocupação desigual gerou uma espacialidade segregadora sendo a área suburbana historicamente ocupada pela população trabalhadora, que para se deslocar sempre se utilizou do trem. Carlos Lessa, em seu livro Rio de todos os Brasis, afirma: “No subúrbio carioca, única região do Rio com poucas praças e áreas verdes, as calçadas das ruas secundárias são a continuação da sala de visitas”.

Portanto, ocupar as ruas, praças, e locais diversos, através do Mutirão Audiovisual, é sobretudo uma forma de reivindicar a valorização destes espaços da cidade, que durante muito tempo tiveram poucos investimentos pelo poder público.

(*) Mestre Geografia UERJ. Professor de Geografia das Redes Municipais de Duque de Caxias e Rio de Janeiro e Um dos Organizadores do Cineclube Subúrbio em Transe

BIBLIOGRAFIA

BERGALA, Alain.  A Hipótese-Cinema. Rio de Janeiro: UFREJ/LISE/CINEAD/BOOK LINK, 2008.

FREIRE, Paulo.  Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 43 Ed. 2011.

FRESQUET, Adriana (Org). Aprender com Experiências do Cinema: Desaprender com Imagens da Educação. Rio de Janeiro: UFRJ/LISE/CINEAD, 2009.

LESSA, Carlos Lessa. O Rio de Todos os Brasis. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MARTIM, Marcel. A linguagem Cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 1980.

PEREIRA, Josias (Org). Novas tecnologias de informação e comunicação em redes educativas – Londrina: ERD Filmes, 2008

FILMOGRAFIA:

Alma Suburbana. Direção: Luiz Claudio Lima; Hugo Labanca; Leonardo Oliveira; Joana D´arc. 2007

Desculpe Qualquer Coisa. Direção: Mano Kinho Chinfra; Luiz Claudio Lima. 2018.

No Limite do Horizonte. Direção Coletiva. 2011. Prêmio: Melhor Filme Mostra Cinema da Gema/Visões Periféricas 2012.

O Lugar do Encontro: Uma Homenagem ao Professor Gilmar Mascarenhas. Direção: Luiz Claudio Lima. 2020.

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