Nada de novo em vender o caos e a violência como normal, por Maria Malta(*)

Ontem vi uma mini-série sobre os dez mais procurados do mundo. Logo o primeiro, Felicien Kabuga, era retratado como financiador de um terrível genocídio do século 20, o genocídio em Ruanda em 1994. Provas: havia comprado centenas de milhares de facões. Aos poucos o documentário revelava que era um dos homens mais ricos de Ruanda. Era visto como um herói, desfilava em seu carro brilhante e tinha uma rádio que, em defesa da liberdade de expressão, veiculava incessantemente mensagens de ódio contra parte da população.

O cotidiano do genocídio tinha a ver com uma prática: o controle permanente do documento de identidade. Isto porque no documento de identidade de cada ruandense estava escrito a sua etnia. Caso não fosse apresentada a identificação, o olho do “soldado de facão” definia a etnia do interlocutor e com ela seu destino. Crianças inclusas.

Os ruandenses viraram o jogo e se reorganizaram para acabar com o genocídio que em 100 dias matou 800 mil pessoas. Mas tudo isso era normal, a vida estava normal. A ONU estava lá. Os colonizadores belgas, que definiram estas etnias por critérios fenotípicos para determinar quem seriam os privilegiados no processo de colonização, nada disseram.

O novo governo ruandense também criou campos de refugiados com suas políticas e acabou tendo que os “resolver”, fazendo-os “desaparecer” em dias, porque a ONU “lavou as mãos”. Porém buscou construir uma Ruanda em que essas “diferenças étnicas” ficassem para trás.

É necessário que se diga que antes dos 100 dias de genocídio, durante a colonização belga e a posterior colonização francesa, bem como no processo de independência e nos dias que se seguiram a ele, atrocidades foram cometidas. Toda a política de diferenciação, intolerância e ódio foi construída, mas tudo estava “normal”.

No Brasil, seres humanos eram transportados em barcos, acorrentados, mal alimentados, porém seguindo todos os critérios “normais” para este transporte. Estavam separados em lotes segundo sexo, idade e, eventualmente, capacidade física e habilidade para o trabalho (técnicos em minas ou agricultura, por exemplo).

 Muitos chegavam em estado tão lamentável que eram deixados quase mortos no cais ou nas praias e outros tinham seus corpos jogados no mar, no caminho, ou eram desembarcados e amontoados ali mesmo, insepultos.

 Estas pessoas vinham de muitos lugares diferentes, traziam saberes técnicos, possuíam suas línguas, suas religiões, filosofias, artes e lutas. Tudo isso foi aqui proibido, tornado demoníaco ou marginal. “O que não se conhece, se apaga”, era a política da época. E tudo isso, supostamente, com o objetivo de “proteger” a sociedade que crescia aqui, ancorada no trabalho dessas mesmas exatas  pessoas.

Na resistência e buscando não se apagar nesse ambiente hostil, estes trabalhadores se uniram, formaram uma cultura nova a partir de todas as diferenças e conhecimentos que possuíam. Lutaram, resistiram, sobreviveram e são parte fundamental da construção social que temos hoje. Porém, foram vítimas de um genocídio financiado por portugueses e ingleses, e apoiado pelo Estado brasileiro, como já demonstrado por Abdias Nascimento, enquanto tudo seguia na “normalidade”.

Aos meus olhos, ao lado dos meus colegas da UFBA, da UFPR e dos movimentos sociais, que veem em 6 meses 100 mil mortos por corona vírus no Brasil, e que acompanham uma imprensa hegemônica e as autoridades instituídas falando em “novo normal”, desnuda-se uma questão forte: qual é o genocídio encoberto por este novo normal?

Em estatística, normal é uma curva em forma de sino, sob a qual, a partir da média, em dois desvios padrão encontram-se 95% dos casos. Desta forma, estatisticamente, normal é o que mais ocorre, o mais comum, o regular, no entanto, não significa ser bom.

Estes dias tenho ouvido a palavra normal como sinônimo de capitalismo.

(*) Professora do Instituto de Economia da UFRJ, Coordenadora do LEMA

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