Comunicando sobre comunicação, por Juliane Gonçalves(*)

       

Comunicação nos dias de hoje                                      

Com o surgimento e crescimento da internet na última década, boa parte da população tem migrado para as redes, sem contar com as gerações que já crescem nesse meio, a chamada geração Z. Os canais de TV, rádio e jornais impressos, os antigos protagonistas que tinham o privilégio de ser os principais emissores, têm hoje que dividir seu espaço com os multicanais da internet, lidar com o fato de que estão perdendo uma audiência de anos, algo natural para a evolução das tecnologias. Então, muitas das empresas de comunicação tradicional buscaram se adaptar a rede. Sem perder o poder, além da parcela da população que não tem familiaridade com redes sociais e ainda usufruem dos antigos canais, as empresas tradicionais criam seus espaços nestas mesmas para a nova geração de internautas. Os meios de comunicação dominantes, como a Rede Globo, Record, Bandeirantes, jornais impressos de nome que se tornaram digitais, ainda permanecem sendo a matriz das informações.

A internet, traz um anseio por dados e posições de destaque que essas grandes empresas da comunicação disputam. Quando se faz uma pesquisa, algoritmos selecionam as notícias mais posicionadas e os links da grande mídia sempre estão a frente. Por que? Porque para cada pesquisa feita no Google, acontece um leilão para definir a posição em que os anúncios aparecerão, assim como o valor que cada anunciante irá pagar caso haja um clique no anúncio. Essa é finalidade da ferramenta de publicidade do Google, o Google Adwords. Os anunciantes também escolhem palavras-chave que querem divulgar. Logo, as empresas de comunicação mais poderosas ocuparão esses primeiros lugares. É só digitar, por exemplo, nomes de políticos, como Sérgio Moro ou Marcelo Valeixo e ver quais jornais estão no topo das pesquisas.

Funcionamento do Google Adwirds segundo do site Ideal Marketing . Link: https://www.idealmarketing.com.br/blog/o-que-e-google-adwords

Nesse quesito, as mídias independentes, da qual há de se falar adiante, passam por dificuldades, visto que, detêm menos poder econômico.

Ademais, existe o advento das bolhas sociais, quando o indivíduo só recebe informações que o convém e não o que o faz ter uma análise crítica da conjuntura brasileira. Isso acontece muito no Facebook, em que as histórias que aparecem no Feed de Notícias são influenciadas pelas conexões e atividades do usuário, isto é, ele vê publicações e notícias que são do seu interesse, compartilhadas pelos amigos com que mais interage. O número de comentários e curtidas recebidos por uma publicação e o seu tipo também podem torná-la mais propensa a aparecer. Isso está na página de ajuda da própria rede, que explica o funcionamento do Feed de Notícias. “O efeito bolha tem restringido o acesso das pessoas à diversidade dos conteúdos, o que gera questionamentos quanto ao seu potencial antidemocrático.” afirma Marcelo Santiago Guedes, perito em Tecnologia da Informação e Comunicação do Ministério Público Federal, em seu artigo Os impactos do efeito bolha causado pelos algoritmos do Facebook para o direito de resposta.

Os desafios do Bolsonarismo

Fotografo do Estadão Dida Sampaio é impedido de registrar imagens do presidente Jair Bolsonaro. O fotógrafo sofreu agressões físicas. Foto : Ueslei Marcelino

Link: veja aqui

Atualmente, incredibilidade trazida pelo bolsonarismo, governo que se elegeu com um grande número de disseminação de notícias falsas e ataques a imprensa, põe a comunicação, mais especificamente, o jornalismo, em prova. Os meios de comunicação profissional se veem trocados por singelas mensagens de whatsapp, o profissionalismo pela ignorância, pelo que favorece o protagonismo do presidente da república. Jair Bolsonaro, o motor deste movimento, insulta constantemente a imprensa, como se o questionamento essencial dos jornalistas fossem uma afronta e os põe como inimigos da nação.

Isso não acontece apenas verbalmente, pois seu governo durante esses últimos tempos, tem tentado dificultar o trabalho dos jornalistas, como a recente tentativa de limitação da Lei de Acesso à Informação, na qual uma Medida Provisória (MP) previa a suspensão dos prazos de resposta e a necessidade de reiteração de pedidos durante a pandemia do novo coronavírus. Já a Lei de Acesso à Informação estabelece como direito de qualquer cidadão receber, do poder público, informações de interesse da sociedade. Além disso, uma outra MP, autorizou a isenção do registro de jornalista, precarizando assim a qualidade de profissionais da informação, fazendo com que a exploração de jovens jornalistas, estagiários em grande maioria, com má formação e isentos do conhecimento de direitos, se dissemine. Em destaque também, há o redirecionamento de verbas públicas para emissoras que o apoiam. Segundo uma reportagem publicada pela Folha de São Paulo, o Tribunal de Contas da União, constata, que as verbas para Rede Globo, que tem criticado muito o governo, diminuíram em 32%, já as verbas da Record e do SBT cresceram em aproximadamente 30%.

.https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2019/11/12/governo-federal-muda-distribuicao-de-verba-nas-emissoras-de-tv.html

E por fim, não basta o presidente, seu governo, mas também o dos próprios apoiadores do Bolsonaro, que vem constantemente atacando os profissionais da comunicação, seja interrompendo as falas, as entrevistas, como até ataques físicos, violentos. Um último caso, foi o da imagem acima, na última manifestação pró-Bolsonaro que aconteceu em Brasília, dois jornalistas do Estadão foram interrompidos de tirar fotos e em seguida foram violentados com chutes e socos. São tempos muito difíceis para o jornalismo.

Comunicação e o Estado

O Estado contém importantes elementos de controle de informação, como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), FVS(Fundação de Vigilância em Saúde), o CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), entre outros, responsáveis pela produção de dados da população. Estatística é arma política, pois jornalistas ou cientistas, servem-se de apoio nesta, para dar um panorama da realidade para a sociedade, logo, se ela está incorreta ou omissa, esses profissionais estão em desvantagem.

Como está o serviço dessas instituições? Hoje, com a atual crise do coronavírus, pergunta-se se eles estão realmente conseguindo apurar todos os números de mortos, infectados e curados. Alguns especialistas acreditam que o impacto do coronavírus é maior do que mostram os números. De acordo com uma reportagem do O Globo, o presidente do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Amazonas, Manuel Viana, admite que o número de mortes diárias cresceu acima das expectativas perante a pandemia[1] e, por isso, a organização dos enterros escapa ao controle. Outro exemplo, que mostra a falha dos dados, é o fato de neste mesmo ano o governo Federal suspendeu a divulgação dos dados do CAGED de janeiro e fevereiro, ou seja, as empresas não estão informando dados de demissões. A falta de dados faz parte da ausência de articulação do Estado e investimento na pesquisa. Isso poderia ser uma estratégia do governo para não mostrar graves problemas sociais do Brasil e manter a atual estrutura do Estado?

A Grande Imprensa está contra o Estado?

Não é porque a imprensa critica o governo que necessariamente ela critica a estrutura do Estado ou os problemas do sistema capitalista. Recentemente a Grande Imprensa criticou o Presidente Jair Bolsonaro, mas muitos veículos de comunicação não esclareceram notoriamente que dar um auxílio emergencial era a sua obrigação em meio a crise. Pouco eles se questionam sobre as obrigações do governo, sobre a estrutura que faz com que essa crise deixe tudo tão mais desigual, estão mais focados nos acontecimentos do momento. Alguns meios de comunicação abrem diálogo sobre notícias, como o Jornal da Cultura, que traz especialistas no assunto, porém ainda não é algo notoriamente profundo ou revolucionário. Também não é incomum que muitos veículos pronunciem a ideia de que “todos estão sendo afetados igualmente” nesta pandemia, o que é falso, já que as periferias, o trabalhadores e informais, sofrem um impacto muito maior.

A mídia é elitista?

Em um processo gradativo, nesses últimos anos, a representatividade da minoria, tem chegado aos poucos aos meios de comunicação, seja por jornais ou canais populares, pelo youtube, entre outros. Com internet, os movimentos sociais, grupos populares, puderam se organizar melhor. Até mesmo as mídias tradicionais tem dado espaço de fala para essa minoria, como pretos, indígenas e LGBTs, muitas vezes para afirmar que está em dia com elas. Porém, as estruturas nessas mídias permanecem as mesmas, as redações, redes de publicidade, seus diretores e funcionários ainda são majoritariamente brancos, héteros e de classe média.

Post de Maju Coutinho com sua redação do Jornal Hoje, nota-se que ela é a única mulher preta na equipe.

Não é atoa que a elitização, o foco nas classe mais altas ainda é presente, por exemplo, quando é para falar da minoria é só a desgraça, pobreza, problemas sociais, mas quando é para falar de eventos, assuntos cotidianos, trazer especialistas é a elite branca que representa-se.

Mídias independentes

Sobre os jornais e mídias independentes, pode-se dizer que, são parte da multiplicidade de canais, que com a vinda da internet, ocuparam seus espaços. Porém estão em desenvolvimento, muitos dependem do material da Grande Mídia, como esta coluna, que ainda tem um acervo de materiais maior, mais correspondentes nacionais e internacionais, assessorias, entre outros. Porém acredita-se que é início de uma transformação, já hoje, as mídias independentes conseguem fazer análises e releases dos materiais que chegam com uma crítica mais progressista. O canais no youtube também merecem destaque nesse quesito. Não pode-se esquecer que também há diversidade entre as mídias independentes. Temos as que estão vinculadas ao empresariado, se financiam por meio do patrocínio de empresas das quais o editorial corresponde e outras, que com muito empenho, são mídias populares que sobrevivem com a colaboração de terceiros, como a ANF(Agência Nacional das Favelas). Há também jornalistas, personalidades independentes, que usam os seus perfis para disseminação de notícias, como Leonardo Sakamoto, jornalista, cientista político e professor, e Nilce Moretto, jornalista e criadora de conteúdo. Ambos utilizam seus perfis no Instagram e Twitter para informar. Para um público que prefere montar seu horário, não ficar dependente de telejornais na televisão ou para aqueles que gostam mais da comunicação audiovisual, esses comunicadores servem de um belo encaixe.

Por fim, cabe ressaltar, a importância da mídia independente no quesito da diversidade de informação. Esses meios, em grande maioria, exploram várias formas de comunicar, diferente das mídias tradicionais. Isso é excelente, pois além de trazer uma visão alternativa do padrão ainda mostra a capacidade e diversidade que a comunicação pode expressar, as diversas formas que ela pode reproduzir.

Print de:http://www.anf.org.br/


(*) Graduanda de Comunicação da Escola de Comunicação da UFRJ

[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/covid-19-faz-mortes-dispararem-em-manaus-cemiterio-entra-em-colapso-1-24384991

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